Paulo Freire
Vós sois meus amigos, se praticais o que vos ordeno (Jo
15,14) costumo dizer que, independentemente da posição cristã em que sempre
procurei estar, Cristo seria, como é, um exemplo do maior pedagogo.
Na minha infância longínqua, das aulas de catecismo, o que
ficava realmente em mim era a bondade grande, a valentia de amar, sem limites,
que Cristo nos testemunhava.
Menino ainda, jovem depois, homem afinal, em quem, contudo, o
menino continuou vivo, me fascinava e me fascina, nos Evangelhos, a
indivisibilidade entre seu conteúdo e o método com que Cristo os comunicava.
O ensino de Cristo não era, nem poderia ser, o de quem, como
muitos de nós, julgando-se possuidor da verdade, buscava impô-la, ou
simplesmente transferi-la. Verdade Ele Mesmo, Verbo que se fez carne, História
Viva, sua pedagogia era a do testemunho de uma Presença que contradizia, que
denunciava e que anunciava.
Verbo encarnado, Verdade Ele Mesmo, a palavra que dele
emanava não poderia ser uma Palavra que, dita, dela se dissesse que foi, mas
uma Palavra que sempre estaria sendo. Esta Palavra jamais poderia ser
compreendida se não fosse aprendida e não seria apreendida se não fosse
igualmente por nós “encarnada”. Daí o convite que Cristo nos fez e por que nos
fez, continua a nos conhecer a verdade se sua Mensagem na prática de seus mais
ínfimos por menores.
Sua Palavra não é som que voa: é Palavração.
Não posso conhecer os Evangelhos se os tomo como palavras que
puramente “aterrissam” em meu ser, considerando-me um espaço vazio, pretendo
enchê-lo com elas. Esta seria a melhor maneira de burocratizar a Palavra, de esvaziá-la,
de negá-la, de roubar-lhe o dinamismo do eterno estar sendo para transformá-la
na expressão de um rito formal. Pelo
contrário, conheço
os Evangelhos, bem ou mal, na medida em que bem ou mal, os vivos. Experimento-os
e neles me experimento na prática social de que participo historicamente, com
os seres humanos.
Daí a aventura arriscada que é aprendê-los e ensiná-los ,
enquanto um ato indicotomizável; daí o medo quase sempre incontido que nos
assalta ao escutar o chamamento do Cristo a prática de sua mensagem; daí as
racionalizações intelectualistas em que caímos e com que pacificamos a
Transparência; daí que falamos tanto em BOA NOVA, sem a denuncia do mau
contexto que obstaculiza a efetivação da BOA NOVA; daí que separamos “Salvação”
de “Libertação”; daí, finalmente, que nos “arquivamos” num tradicionalismo ou
num modernismo maneira de sermos mais efetivamente
tradicionais-alienadores-recusando o estar sendo para poder ser, o que
caracteriza a verdadeira posição profética.
Conhecer
os Evangelhos enquanto busco praticá-los, nos limites que a minha própria
finitude me impõe é, assim, a melhor forma que tenho para ensiná-los. Neste sentido é que somente a prática
de quem se sabe humildemente um eterno aprendiz, um educando permanente da
palavra, lhe confere autoridade, no ato de aprendê-la e de ensiná-la.
Autoridade, por isso mesmo, que jamais se alonga em
autoritarismo. Este, pelo contrário, é sempre a expressão da redução da Palavra
a mero som – não mais PALAVRAÇÃO – e
a negação, portanto, do testemunho pedagógico do Cristo.
(Notas
de Paulo Freire a quatro jovens seminaristas alemães. texto inédito, escrito em
Genebra em 1977). "Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo"
Até a próxima!
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