“Senhor, como queres que
preparemos a Páscoa?” (Cf. Mt 26, 17)
Hoje, às vésperas de
iniciarmos a Quaresma de 2010, repetimos esta mesma pergunta que os
discípulos dirigiram a Jesus. A pergunta é justamente sobre a forma de
“preparar” a Páscoa.
Pois bem, para qualquer festa importante, a gente costuma se
preparar. E quanto mais importante a festa, mais tempo leva a preparação. Na
própria preparação já se começa a viver a festa .
1. O que é a
Quaresma
Nós cristãos celebramos todo ano a festa da Páscoa: a morte e a
ressurreição de Jesus e também a nossa. É a maior de todas as festas. A mais
importante... Grande demais para ser preparada em apenas três dias ou uma
semana. Por isso, estendemos a sua preparação para quarenta dias. Daí Quaresma,
período de quarenta dias, que vai da quarta-feira de cinzas até a quinta-feira santa pela
manhã.
Os textos litúrgicos que rezamos durante o tempo da Quaresma são
belíssimos e nos conduzem ao verdadeiro espírito deste “tempo favorável”.
Poderia citar muitos mas o espaço do artigo não me permite. Cito portanto
apenas o Prefácio da Quaresma V (Missal Romano, pág. 418) como síntese de toda
esta riqueza:
“Na verdade, é justo e necessário, é nosso dever e salvação
louvar-vos, Pai santo, rico em misericórdia, e bendizer vosso nome, enquanto
caminhamos para a Páscoa, seguindo as pegadas de Jesus Cristo, vosso Filho e
Senhor nosso, mestre e modelo da humanidade, reconciliada e pacificada no amor.
Vós reabris para a Igreja, durante a Quaresma, a estrada do
Êxodo, para que ela, aos pés da montanha sagrada, humildemente toma consciência
de sua vocação de povo da aliança. E, celebrando vossos louvores, escute vossa
Palavra e experimente os vossos prodígios.
Por isso, olhando com alegria esses sinais de salvação, unidos aos
anjos e aos santos, entoamos o vosso louvor, cantando a uma só voz:”
Podemos encontrar neste Prefácio todos os elementos que
caracterizam não só a liturgia deste Tempo, mas especialmente a sua teologia, a
sua espiritualidade e a sua pastoral. Voltamo-nos para Deus, “Pai Santo,
rico em misericórdia”; relembramos a grande experiência do Êxodo, da Aliança,
da libertação e da nova terra; assumimos nossa atitude de povo peregrino,
ouvintes da Palavra, povo amado e escolhido por Deus; nosso modelo é Cristo,
cuja morte e ressurreição celebramos de forma mais intensa neste tempo.
Enfim, a Quaresma é um “sinal de salvação” ou, numa expressão usada num artigo
de Dom Manoel João Francisco, “sacramento anual de reconciliação”.
É indispensável que recuperamos também a Quaresma como o tempo
ideal de fazer a preparação final dos catecúmenos que serão batizados,
confirmados e receberão a Eucaristia na Vigília Pascal. O Ritual da Iniciação
Cristã dos Adultos (RICA) lembra que “o tempo da purificação e iluminação
dos catecúmenos é normalmente a Quaresma. De fato, na liturgia e na catequese,
pela comemoração ou preparação do Batismo e pela penitência, a Quaresma renova
a comunidade dos fiéis juntamente com os catecúmenos e os dispõe para a
celebração do mistério pascal, ao qual os sacramentos de iniciação associam
cada um” (Introdução do RICA, n. 21).
2.
Simbolos, ritos, gestos quaresmais
São vários os símbolos, as atitudes e iniciativas humanas e
religiosas que acompanham e enriquecem o tempo da Quaresma, no qual, como em
toda preparação, já saboreamos de certa maneira a festa da Páscoa que virá. Por
exemplo:
· A cor roxa, as cinzas e a cruz lembram o caráter de penitência e
conversão próprio deste tempo. Isto se manifesta também no visual do espaço
celebrativo, sóbrio, despojado.
· O jejum nos orienta a dar mais atenção à Palavra de Deus. A fome
que sentimos (quando fazemos jejum) pode simbolizar e evocar a fome que temos
da Palavra de Deus. É tempo forte, portanto, de escuta da Palavra, pois
através dela vamos conhecer os desejos de Deus e praticar a sua vontade.
· Ajudados pela Campanha da Fraternidade, intensificamos a prática
da caridade, procurando corrigir e aperfeiçoar, à luz da Palavra de Deus, nosso
jeito como tratamos as pessoas e com elas nos relacionamos, sobretudo os mais
pobres e sofredores, e como procuramos ajudá-los a viver com dignidade.
Nesta ano de 2010, temos uma motivação ainda maior por ser uma Campanha da
Fraternidade Ecumênica.
· Nesse tempo forte da vida da Igreja intensificamos nossa vida de
oração, na forma de súplicas, pedidos de perdão, intercessão, agradecimento,
compromissos de fé, melhor participação na comunidade etc. É um tempo próprio
para, nas comunidades, a gente participar de alguma celebração penitencial
(individual ou comunitária). Sobre estas três atitudes – jejum, esmola e oração
– os Santos Padres fazem muitas referências. Recordemos algumas: “O que a
oração pede, o jejum alcança e a misericórdia recebe. Oração, misericórdia,
jejum: três coisas que são uma só e se vivificam reciprocamente” (São Pedro
Crisólogo). “Não tem mérito nenhum negar alimento ao corpo se no coração não se
renuncia à injustiça e se a língua não se abstém da calúnia” (São Leão Magno).
“A esmola só será autêntica se à ajuda material estiver unido o perdão das
ofensas” (Santo Agostinho).
· Podemos expressar nossa vontade de participar da caminhada sofrida
de Jesus (vítima da violência, de ontem e de hoje), participando de procissões
(de ramos, do encontro, do Senhor morto etc.), Via-Sacras, círculos bíblicos
etc.
·
Expressamos o “clima” próprio deste tempo forte da vida da Igreja
também através da música e do canto. Há uma música própria e cantos que
caracterizam este tempo, além do hino da CF . O Hinário 2 da CNBB apresenta
também um bom repertório de músicas litúrgicas quaresmais. Na introdução do
Hinário 2 lemos: “Cantar a Quaresma é, antes de tudo, cantar a dor que se
sente pelo pecado do mundo, que, em todos os tempos e de tantas maneiras,
crucifica os filhos de Deus e prolonga, assim, a Paixão de Cristo. O
canto da quaresma nos inspira e anima a assumir, com mais garra do que nunca, a
Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. (...) Pela participação em seus sofrimentos,
isto é, ‘obedientes ao Pai e comprometidos com os irmãos até o fim’ (cf. Jo
13,1), ‘cheguemos à glória da sua ressurreição’ (cf. Fl 3, 10-11)”. Para
ajudar nesta vivência, é aconselhável também que se evite na Quaresma o toque
de instrumentos musicais. Também não cantamos o “glória” e o “aleluia”.
3.
Lembretes práticos para as equipes de liturgia e de celebração
·
O espaço litúrgico, despojado, sóbrio e “vazio” nos ajuda a
esvaziar o coração para preenchê-lo com a Palavra, que é luz para nossos passos
e que nos converte.
·
Momentos de silêncio, principalmente entre as leituras e após a
homilia, são importantes.
·
Um sinal permanente no espaço litúrgico, como um tecido roxo em
forma de faixa na mesa da Palavra ou como detalhe na mesa eucarística (sem
“tampar” ou esconder o altar), ajudará na experiência quaresmal. Não colocar o
cartaz da CF em frente ao altar ou ambão, mas num outro local, de preferência
na entrada da igreja, bem visível para a comunidade.
· A cruz, pela qual fomos marcados no Batismo, deve ser destacada.
Ela lembra que somos discípulos e discípulas de Jesus, que superou o fracasso
humano da cruz com um amor que vence a morte.
·
A comunidade pode fazer maior experiência da misericórdia de Deus
através do sacramento da Reconciliação, de celebrações penitenciais e também de
retiros.
4.
Semana Santa e Tríduo Pascal: a conclusão da quaresma
Existe um jeito, um lugar, um momento muito especial no qual
aprenderemos a “viver a semana santa”. É o que nos aponta o saudoso Papa Paulo
VI: “Se há uma liturgia que deveria encontrar-nos todos juntos, atentos,
solícitos e unidos para uma participação plena, digna, piedosa e amorosa, esta
é a liturgia da grande semana. Por um motivo claro e profundo: o Mistério
Pascal, que encontra na Semana Santa a sua mais alta e comovida celebração, não
é simplesmente um momento do Ano Litúrgico: ele é a fonte de todas as outras
celebrações do próprio Ano Litúrgico, porque todas se referem ao mistério da
nossa redenção, isto é, ao Mistério Pascal”.
“Viver a semana santa” significa fazermos memória destas ações
maravilhosas de Deus. Mais, saber que estamos “re-vivendo” todos estes fatos.
“De geração em geração, cada um de nós é obrigado a ver-se a si próprio, com os
olhos penetrantes da fé, como tendo ele mesmo estado lá no Calvário, na
primeira sexta-feira santa, e diante do sepulcro vazio, na manhã da
ressurreição. Hoje, todos nós, aqui reunidos para celebrar a eucaristia,
estávamos lá, prontos a morrer na morte de Cristo e a ressuscitar em sua
ressurreição. Será exatamente nossa comunhão com o corpo sacramental do
verdadeiro Cordeiro que nos tornará realmente presentes àquele eterno
presente.”
Pe. Carlos
Gustavo Haas
Notas
1. Cf. Frei José Ariovaldo da
Silva, O tempo da Quaresma, Liturgia em Mutirão, Edições CNBB, pág. 38-40.
2. Está publicado pela Paulus um CD com todos os cantos próprios da Quaresma e
da CF para a missa de cada domingo da Quaresma deste ano.
3. Cf. Ir. Veronice Fernandes, A liturgia do tempo da quaresma, Liturgia em Mutirão II, Edições
CNBB, pág. 99.
4. Sugerimos o DVD Reconciliai-vos, produzido pela CNBB e Verbo Filmes, como
roteiro para estudo e aprofundamento do sacramento da Penitência e
Reconciliação e das celebrações penitenciais.
5. Sugiro ainda a leitura do importante artigo de Pe. Domingos Ormonde e Ir.
Penha Carpanedo que está publicado na Revista de Liturgia, janeiro/fevereiro
2010, pág. 15 a
22.
6. Césare Giraudo, Redescobrindo a Eucaristia. São Paulo, Loyola, 2002, p. 83
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