Crer no céu é uma atitude infantil? O que nos foi ensinado pelos nossos pais, pela sociedade e pela Igreja durante anos e anos, foram os mais variados conceitos sobre o céu e o inferno, o bem e o mal, o certo e o errado, andar pelo caminho reto e ou pelo caminho do pecado. Como analisamos hoje, esse conceito para nossa vida, a partir das experiências vivenciadas, da evolução do tempo e do espaço? Qual o céu que desejamos alcançar em nossa caminhada?
Hoje temos clara consciência de que o cristão deve viver no mundo e lutar para melhorá-lo. Sabemos que ao longo da história caiu-se com demasiada freqüência na tentação de viver um cristianismo de “torre de marfim”, desinteressado das transformações deste mundo efêmero. Temos diante de nós a lapidar sentença de Jesus: “Afastem-se de mim malditos... porque eu estava com fome e vocês não me deram de comer...” (Mt 25, 41 – 42). É inapelável; a salvação é conseguida com os outros e nos outros, pois “o que diz: ‘Eu amo a Deus’, e, no entanto odeia seu irmão, esse tal é mentiroso”... (1Jo 4,20).
O céu foi tão manuseado e desvirtuado que, com freqüência, já não tem nada a ver com o céu da fé. Entretanto, gostaríamos de lembrar que somos convidados a pertencer a esse céu e que só lá é que alcançaremos a nossa mais plena realização. Por volta dos anos 300 a 600 d.C. queremos lembrar a grande espiritualidade cristã vivida pelos primeiros monges. hoje em dia se começa a redescobrir a sabedoria dos padres do deserto. Psicólogos interessam-se atualmente por aprender a lidar e a observar as experiências dos primeiros monges, os seus métodos, os seus pensamentos e os seus sentimentos. Os que eles conseguem perceber é que se fala aí meramente sobre homens e sobre Deus, mas que suas palavras provêm de um sincero autoconhecimento e de uma verdadeira e real experiência de Deus.
É impressionante como esta espiritualidade vem ao encontro da necessidade e anseios atuais por uma espiritualidade a partir da base, ou seja, uma espiritualidade que nem sempre está voltada meramente para o céu, mas que começa em nós mesmo, em nossos pensamentos, sentimentos e paixões.
II – DESENVOLVIMENTO
1. Conceito de céu
O que nos diz a Bíblia sobre o céu? A Bíblia nos diz em João, como palavra de Jesus, que: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Senão, porventura eu vos teria dito que ia preparar-vos o lugar onde ficaríeis? Quando tiver ido prepará-lo para vós, voltarei e vos tomarei comigo, de tal sorte que lá onde eu estiver, também vós estejais.” ( Jo 14, 2-3). O céu é, portanto, a morada de Deus. É a casa do Pai.
Querer criar um conceito de céu pode estar fora do alcance da nossa compreensão; muito se fala do céu, muito se propaga em falas diversas a respeito de céu, a morada do Senhor Deus. Sabemos que lá é o local em que o Cristo Jesus está com o Pai aguardando voltar a Terra para atuar, agora como Juiz Justo de Deus. Na carta de Paulo aos coríntios está escrito: “Mas, como está escrito, é o que o olho não viu, o ouvido ouviu, nem subiu ao coração do homem: tudo o que Deus preparou para os que o amam”. (1Cor 2,9).
O céu é, portanto, algo inimaginável, é a morada que Deus preparou aos eleitos, é a morada de Deus Pai e Deus Filho; não se pode descrevê-la, pois é incompreensível para a mente humana.
Encontramos ainda na carta de Paulo aos coríntios: “Mas quando vier a perfeição, o que é limitado será abolido(...)Agora, vemos em espelho e de modo confuso; mas então, será face a face. Agora, o meu conhecimento é limitado; então, conhecerei como sou conhecido”. (1Cor 13, 10.12).
Deste texto bíblico contendo palavras de Paulo, cheio de sentido metafórico, podemos arriscar uma explicação: o céu é como o cotidiano de um casamento perfeito e maravilhoso (Cristo/Igreja) onde não há dor, mal entendidos e nem possibilidade de separação; onde seremos íntegros, pois apareceremos uns aos outros como somos, sem precisar nos fechar pois o mal não será mais uma realidade e então, poderemos amar plenamente, uns aos outros com total liberdade e completa transparência e, ainda, “conhecermos como somos conhecidos”, tendo em vista sermos íntegros com todos, inclusive tendo Deus numa completa intimidade e só assim, o conheceremos tal como Ele nos conhece.
É muito complexo falar de céu, sem usarmos metáforas, pois se trata de nossa realidade apenas em parte quando nos convertemos e conhecemos o amor de Deus em nossas vidas. Sendo assim, é difícil para nós que ainda somos carne, tratar de uma realidade espiritual sem ser através de comparações imperfeitas. É como conversar com uma criança sobre a vida adulta ou ainda usar a analogia de um casamento feliz e do amor físico para alguém que nunca amou, é ainda, como ter idéias das coisas, mas não saber da essência dos fatos.
Então, sob esta ótica, o céu é algo humanamente inconcebível.
E que tal nós usarmos uma linguagem simplista para traduzir o que entendemos sobre o que seria a definição de céu? Senão, vejamos: o céu é, portanto, nada mais do que a presença eterna de Deus. Mas estas palavras soam simples demais para serem assimiladas de uma única vez, por mais paradoxal que nos pareça. Aqui, nos deparamos com rascunhos mal desenhados dos dons de Deus. Lá encontraremos a perfeita justiça divina, sua misericórdia, seu amor, sua alegria e sua paz. E isto é algo inconcebível para nós que temos uma mente limitada por questões de tempo, espaço físico e tudo mais que nos cerca e que nos impede de transcender a um conhecimento mais profundo acerca das coisas de Deus.
Creio que qualquer explicação fora de uma atitude metafórica é questionável, tendo em vista que esse conhecimento acerca das coisas preparadas por Deus para os homens é no mínimo insondável a nossa mente.
O céu está em nós. O céu é um caminho interior, é um caminho que nos leva a ascender. É fixar o coração somente em Deus. Porém, o caminho para Deus passa por minha fraqueza, subimos para Deus à medida que nos rebaixamos até nossa própria realidade. Para isso precisamos da humildade, “Quem se humilha a si mesmo será exaltado”. É descendo para dentro de nossa condição terrena que entramos em contato com o céu; com Deus.
2. A compreensão na concepção teológica
Teologicamente falando, há uma distinção entre “céu” e “estado final”. O céu é referido como o estado intermediário entre a morte e a ressurreição dos mortos, quando os crentes em Cristo estão na presença de Deus, em espírito, enquanto seu corpo repousa aguardando o dia da ressurreição. É dogma de fé de um cristão, acreditar que Cristo voltará e aí, os mortos ressuscitarão e os crentes, com seus corpos novos e gloriosos, viverão um novo céu e uma nova terra como mencionou Pedro em sua carta: “Vós que esperais e apressais a vinda do dia de Deus, dia em que os céus inflamados se dissolverão e os elementos abrasados se derreterão. De acordo com sua promessa, nós esperamos novos céus e uma nova terra, nos quais habitará a justiça”. (2Pe 3,12-13).
É de se entender, portanto, que a esperança do cristão não é o céu em sua expressão como costumamos entender, mas diz respeito à ressurreição, à vitória sobre a morte, o revestimento do corpo igual ao de Cristo, eterno e imortal, além de incorruptível (cf. 1Cor 15).
Todos nós seremos ressuscitados e congregados por Jesus Cristo para o juízo final, pois Deus nos enviou seu Filho não para condenar o mundo, mas para salvá-lo. Esse julgamento será como um auto-julgamento, pois perante Deus se fará evidente o que fizemos de nós mesmo. Se tivermos uma vida sem comunhão, logicamente cultivamos esse juízo. Mas, se vivemos buscando a verdade em Deus, com boa vontade, ao final da vida estaremos em Sua presença. É verdade que Deus quer a salvação de todos, no entanto, proporciona vários caminhos para quem quer seguir a reta consciência.
Se, ao falarmos de céu estivermos nos referindo ao estado final, o céu é, portanto, tudo isso, acrescentando-se ainda, a idéia da ressurreição, quando estaremos diante de Deus, conscientes de nós mesmos, de nossa história, gratos a Ele por tão poderosa salvação, num local onde não haverá pranto algum, nem tristezas, nem corrupção, nem discriminação nem muito menos injustiça.
Precisamos ter consciência de que, a partir da fé, Deus atuou e continua atuando de maneira salvadora na história. Essa intervenção ilumina a situação concreta de cada um de nós, trazendo-nos um sentido que abrange o presente e que, ao mesmo tempo, se projeta no futuro, quando as promessas divinas chegarão à plena concretização. Deste futuro que é nosso fundamento de esperança, tratam as realidades últimas da fé: segunda vinda de Jesus, juízo, ressurreição, inferno, purgatório e céu.
E, na carta aos coríntios encontramos: “Conheço um homem em Cristo que, faz quatorze anos – era no meu corpo? não sei; era fora do meu corpo? não sei, Deus o sabe – este homem foi arrebatado ao terceiro céu. E sei que este homem – era em seu corpo? era sem o seu corpo? não sei, Deus o sabe – este homem foi arrebatado ao paraíso e ouviu palavras inexprimíveis que não é permitido ao homem repetir”. (1Cor 12, 2-4). Só os verdadeiros servos têm o privilégio de irem ao céu chamados por Deus e lá ouvirem palavras inefáveis; com toda certeza o céu é de uma beleza inarrável; o céu do Senhor é algo indescritível; é uma glória tão imensa que o ser humano, por maior inteligência que tenha não poderia imaginá-lo.
III – O INFERNO
E o inferno? O que falarmos sobre ele? O que entenderíamos sobre o inferno?
Nós dificilmente conhecemos alguma coisa sobre o céu e o inferno ou sobre a vida depois da morte e, entretanto, essas coisas são mencionadas na Bíblia. E mais ainda: quando muitos de nós ao sermos indagados sobre este assunto dizemos “quem veio de lá para nos contar”?
Podemos dizer que o inferno é o contrário do céu, isto é, é a absoluta frustração humana? O inferno não faz parte do projeto de Deus, pois Ele não quer condenar ninguém e para isso mandou seu Filho único, Jesus, para nos salvar. Se na Bíblia Jesus é chamado de "Salvador" é porque Ele veio nos salvar de alguma coisa. Em sua carta Paulo diz que "Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores..." (1 Tm 1,15). Como "todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus" (Rm 3,23), estamos, então, todos no mesmo barco: pecadores necessitando de um Salvador.
Deus nos convoca, nos desafia nos solicita, insistentemente, para que nos salvemos e nos ameaça com a finalidade de ajudar-nos a evitar a condenação. Portanto, não podemos colocar o céu e o inferno numa mesma posição, pois privilegiar o inferno é esvaziar o conteúdo da “Boa Nova” trazida por Jesus, através de seus evangelistas. A salvação, então, é uma proposta para todos, não uma imposição, restando, portanto, a possibilidade de condenação para quem não quer salvar-se, e essa não aceitação de salvação podemos chamar de inferno.
No que diz respeito aos textos bíblicos, encontramos algumas passagens que nos remetem a este tema. Em Daniel: “Muitos daqueles que dormem no solo poeirento despertarão, estes para a vida eterna, aqueles para o opróbrio, para o horror eterno”.(Dn 12,2). Esse texto parece-nos descrever um modo de ser no além que sugere um estado de infelicidade e de condenação. Seria o inferno? Em Marcos encontramos o seguinte: “Logo depois da tribulação desses dias, o sol escurecerá, a lua não mais brilhará, as estrelas cairão do céu e as potências celestes serão abaladas. Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; então todas as tribos da terra baterão no peito; e elas verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens do céu na plenitude do poder e da glória. E ele enviará seus anjos com a grande trombeta, e, dos quatro ventos, de uma extremidade dos céus a outra, eles reunirão seus eleitos” (Mc 24, 29-31).
Quando lemos essas palavras sem olhar o contexto sócio-político-religioso no qual foi escrito, cremos simplesmente que todas essas coisas devem ocorrer como estão descritas nesse sentido, no último tempo que é chamado Juízo Final. Isto é, que não apenas o sol e a lua escurecerão e as estrelas cairão do céu, mas que o sinal do Senhor aparecerá no céu e Ele próprio será visto nas nuvens, acompanhado de anjos com trombetas. Ainda, de acordo com o que está escrito, todo o universo visível haverá de perecer e, depois disso, haverá de surgir um novo céu e uma nova terra. Mas os que têm essa crença não conhecem os mistérios que se escondem em cada uma das particularidades dos textos bíblicos. Com efeito, nessas particularidades desses textos está o sentido interno, no qual são compreendidas não as coisas naturais e do mundo, que são tratadas no sentido literal, mas as coisas espirituais e celestes. Isto se dá não só com a significação geral de muitas expressões, mas também com cada uma dessas expressões. Pois a Bíblia é escrita inteiramente para que em cada uma de suas particularidades esteja o sentido interno.
Com efeito, nos textos bíblicos encontramos várias imagens e símbolos que nos dão uma ideia do que poderíamos entender o que seria o inferno. As comparações usadas pela Bíblia parecem descrever uma situação de sofrimento moral intenso, sufocante, angustiante, que queima que dói. Imagens e símbolos traduzem o que seria a triste realidade de quem optou conscientemente para viver longe do amor de Deus e da comunhão com os irmãos. Em Tiago 4,12 encontramos "há só um legislador que pode salvar e destruir"; Jesus falou de pessoas que serão lançadas "nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes" (Mt 8,12) ou "fornalha de fogo" (Mt 13,42), e Apocalipse 21,8 fala que os incrédulos serão lançados no lago de fogo.
Que destino seria esse? A pena do condenado? Na sociedade dos homens, quando alguém pratica um crime deve sofrer uma pena. Com Deus não é diferente. Somos pecadores, porque praticamos do pecado, porque usamos com prazer para satisfazer nossos desejos, e estamos sujeitos a um julgamento e a uma pena. A questão é: como ser salvo e liberto dessa pena e desse destino? É quando entra o Salvador. E Paulo nos diz "que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras.” (1Cor 15 ,3-4).
A Bíblia toda faz sentido quando você enxerga Jesus como o Cordeiro que foi sacrificado em seu lugar para que você não seja condenado. Bastou um pecado para excluir o ser humano da presença de Deus, e a pena foi terrível. Mas, tão grande ou maior do que a pena é a graça de Deus que quer salvar aquele que crê e sair deste estado no qual nos encontramos. Mas, ao querermos “evoluir” procuramos nos igualar ao próprio Filho de Deus, sermos deuses, e isto é mais do que pretensão. Seremos salvos à medida que nos amarmos uns aos outros; à medida que vemos Jesus no pobre necessitado, no marginalizado.
A escada para o reino do céu está escondida em minha alma. É mergulhando para dentro dos pecados que estão em nós, que assim encontraremos ali uma escada pela qual poderemos ascender até Deus, que é a ansiedade original do homem. Jesus é aquele que por primeiro se rebaixou. Na espiritualidade a partir da base: acredita-se ser possível que eu descubra tanto a vontade de Deus quanto a minha vocação a partir de mim mesmo.
Então, compreendemos que o inferno não existe na criação de Deus. É criação do homem, simplesmente, pois Deus não pode querer o mal. E, o homem, com a liberdade dada por Deus, em poder agir com livre arbítrio, criou verdadeiros infernos na terra: Auchwitz, Gulag, Vietnã, a desumanidade dos torturadores, a indiferença dos poderosos face ao sofrimento dos pobres e fracos e uma maldade monstruosa em escolher a negação ou pior ainda, o ódio ao bem. Pois o inferno nada é mais do que o ódio a Deus e a tudo que se relaciona com Ele. Devemos, então, lançarmos em total abandono nas mãos do Deus misericordioso, do Deus da vida, do Deus que não duvidou em entregar seu próprio Filho para que o mundo se salve por Ele?
IV – A CHEGADA DO REINO DOS CÉUS
Jesus foi à cidade de Nazaré, onde se havia criado. Conforme seu costume, no sábado, entrou na sinagoga e levantou-se para fazer a leitura.
Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Abrindo o livro, Jesus encontrou a passagem em que estava escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou...” (Lc 4, 16 – 21).
Os tempos estão maduros e as promessas estão cumpridas. O “dia de Javé”, tão anunciado pelos profetas, é por fim uma realidade. Já não cabe esperar nada fora de Jesus Cristo, pois nele o próprio Deus nos foi dado. O reino dos céus esta entre nós, com todo o seu poder libertador (Mc 1,14).
Não obstante, desde o começo, a missão de Jesus Cristo é incompreendida. Muitos esperavam um messias político que encabeçasse uma rebelião contra o Império Romano e instaurasse uma teocracia terrena. No episódio da multiplicação dos Pães do Evangelho de João, produz-se um incidente significativo: o povo diante do milagre que Jesus acaba de realizar, vê nele o Messias esperado e pretende proclamá-lo rei. Ele, porém, se retira para a montanha (Jo 6,14 – 15). No capítulo oitavo do Evangelho de Marcos, Pedro proclama que Jesus é o Messias, no entanto, curiosamente, ele lhe ordena silêncio e, logo depois, o chama de “Satanás”, quando Pedro quis impedir seu sacrifício (Mc 8,29. 33). Por que trata tão duramente àquele a quem mais adiante encarregará da condução da Igreja?
Jesus descarta toda interpretação triunfalista. Seu messianismo deve percorrer outro caminho, longe do desejo de poder e de glória; o poder da cruz, o mais incompreensível e escandaloso, porém, como veremos, o único cujo triunfo não será arrebatado. “Começou a ensinar aos discípulos, dizendo que o Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e doutores da lei, deve ser morto e ressuscitar depois de três dias...” (Mc 8,31). Ele não escolhe a figura de um líder poderoso que ponha os inimigos de Israel sob seus pés, mas a do Servo sofredor, como descrito nos quatro cantos do profeta Isaías.
Toda sua vida se desenvolve sobre este molde: nasce num casebre, cresce no seio de uma família humilde, prega e vive entre os marginalizados e se mantém distante dos poderes do sumo sacerdote e do procurador romano, chegando a enfrentá-los. Seu Reino, portanto, não é deste mundo (Jo 18,36); ou seja, não se amolda aos interesses humanos, tantas vezes estreitos e mesquinhos. Não se reduz a um aspecto particular da vida dos israelitas (político, religioso, social, espiritual), mas os abrange e transcende. Está entre nós e, não obstante, nada mudou externamente.
V - CONCLUSÃO
As qualidades celestes que devem estar dentro de nós se quisermos ser participantes do reino de Deus, podem ser enumeradas desta maneira: andar honestamente; fazer o que é reto; ser justo e honesto em todos os negócios; falar a verdade em nossos corações; ser integralmente honestos conosco mesmos; não difamar com nossas línguas; não se entregar à vingança por qualquer afronta; não fazer mal algum ao seu próximo - individual e coletivamente; não aceitar suborno contra o próximo, isto é, não tratar mal uma pessoa boa; não apoiar a maldade de um ímpio, mas honrar aqueles que têm consideração ou temor pelas coisas do reino de Deus; compelir-nos a manter nossos compromissos com Jesus, mesmo quando os nossos interesses materiais forem contrariados; ser constante e não volúvel; não visar a recompensa à retorno do bem que se faz como se fosse um investimento; não se acovardar por considerações pessoais em caso de termos de nos levantar contra a injustiça feita a um inocente. Ter o coração puro, isto é, ter somente intenções puras nos íntimos de nossa mente, da mesma forma que demonstramos ter em nossos atos; evitar a vaidade, o orgulho e o preconceito; evitar toda espécie de engano, especialmente os juramentos falsos.
No Novo Testamento, mais precisamente, no Sermão da Montanha, o Senhor, ao proferir as bem-aventuranças celestes, acrescentou à lista de bem-aventuranças as qualidades que fazem o céu ou o Reino de Deus: pobreza de espírito à a conscientização de quão pouco sabemos e entendemos acerca da sabedoria do Senhor; acrescentou também uma espécie de lamento que surge quando encaramos realisticamente nossa falta de bondade; falou da mansidão da caridade ou boa vontade para com próximo; citou os que têm fome e sede de justiça, ou seja, o apetite espiritual por uma vida de acordo com a ordem divina de Deus; falou ainda sobre a misericórdia, a pureza de coração; a qualidade de ser amante da paz, e da disposição de ser perseguido por aqueles que odeiam os caminhos do Senhor; a disposição de seguir Jesus mesmo quando se é ridicularizado pelo outros.
Aqui não se trata de uma lista completa, mas de algumas das qualidades da mente que constituem o Reino de Deus. A lista é infindável, pois a Palavra divina, do começo ao fim, não trata de outra coisa. Mas essas qualidades aqui enumeradas nos dão alguma idéia do que o Senhor nos falou quando disse: "O reino de Deus está dentro de vós”.
Contudo, é igualmente verdade que o reino de inferno está também dentro de nós. O inferno, assim como o céu, é essencialmente um estado da mente, embora muito oposto ao estado da mente do céu. Mas se nós tivermos o inferno dentro de nós, ele será visto também à nossa volta como um lugar, um lugar medonho, que reflete os horrores da maldade que lá estão.
Todos os males proibidos nos Dez Mandamentos e em toda a Bíblia são as coisas que fazem o inferno ser inferno. Eles são o oposto das boas qualidades que formam o céu; é a desonestidade; a prática de injustiças; é enganar-se a si mesmo e querer enganar os outros; é usar os dons de Deus para proferir injúrias e difamar; é lesar o próximo, não apenas o próximo individualmente, mas também o bem público, isto é, agir contra a sociedade; é tratar os bons de forma iníqua, e valorizar e prestigiar os que são malfeitores.
É nunca se compelir a deixar de fazer o mal, mas agir de acordo com as paixões e cobiças; é sempre esperar alguma espécie de recompensa, elogio ou vantagem no bem que se faz, e não querer ajudar quando não puder obter tais coisas; é se deixar envolver em suborno e outras formas de corrupção, em detrimento do inocente; é ter o coração impuro e uma alma consumida pela vaidade e pela soberba; é prometer enganosamente e zombar da sinceridade; é não ter pobreza alguma de espírito, mas considerar-se suficiente rico aos próprios olhos; é ter presunção da própria justiça e bondade, sem a humildade da caridade; é não ter desejo ou apetite espiritual algum por uma vida baseada na obediência aos mandamentos de Deus; é ser cruel e não ter compaixão; é ter somente motivos externos em tudo o que faz; e, ao invés de ser perseguido por causa da justiça, promover a perseguição daqueles que se esforçam para fazer o que é direito e falar o que é verdadeiro.
Também esta não é uma lista completa, mas nos dá uma noção do que é o estado da mente dos que estão no inferno. Por essas coisas, podemos ter uma ideia do que o fogo infernal não é fogo que está fora, fisicamente, mas dentro de nós; é um fogo que queima não nossos corpos, mas nossa vontade, pois é um incêndio de desejos maus que nunca se satisfazem e nunca se realizam, e queimam para sempre, consumindo-nos por dentro. Enquanto estamos aqui, nesta vida, estamos fazendo escolhas e moldando, dentro de nossos corações, o ambiente espiritual que haverá à nossa volta: céu ou inferno, e nesse ambiente viveremos para sempre. Fazemos a decisão agora e somos completamente livres para escolher nossos caminhos.
Não devemos nem podemos ser constrangidos. Mas nossas escolhas terminam quando deixamos este mundo. Não podem mais ser mudadas, e nem o queremos. Será tarde demais para mudar nossos sentimentos, pois eles terão se tornado parte de nossa natureza, nossa vida, e mudá-los seria mudar nossa própria vida, nossa identidade e nossa individualidade.
De todas estas coisas fica evidente que, para que possamos estar no céu, é preciso que o céu esteja primeiro dentro de nós. Devemos ser preparados para o céu enquanto estivermos aqui. Devemos receber a vida celeste dentro de nossas vidas. Nossas mentes devem ser um pequeno céu, uma pequena imagem do Reino de Deus. A finalidade de nossas vidas neste mundo é adquirir do Senhor as qualidades celestes que constituem o seu reino.
Em razão de nossas tendências herdadas, nós nos inclinamos ao amor característico do inferno. Amamos a treva mais do que a luz, porque nossas obras são más. Sendo assim, se não houvesse alguma influência do Senhor sobre nossas mentes, se o Senhor não influísse em nós desde os céus, se o Senhor não nos tivesse revelado o caminho da vida com sua Palavra, nós permaneceríamos no fogo infernal, o fogo destruidor, e morreríamos em nossos pecados. A verdade mais clara sobre este ponto veio da boca do Senhor mesmo, quando falava com Nicodemos: “Aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”. (João 3,3). A Bíblia é cheia de passagens como esta, ensinando-nos que precisamos ser preparados para o céu, a fim de podermos ser recebidos e nos sentirmos em casa lá.
Tomemos, por exemplo, este conselho que o Senhor deu aos Seus discípulos: “Portanto, estai vós também apercebidos; porque virá o Filho do homem à hora que não imaginais” (Lucas 12,40). Aplicada ao indivíduo, a vinda do Filho do Homem significa à hora de nossa morte, quando o Senhor, por assim dizer, retorna, pois nós vamos à Sua presença. Assim, o Senhor exorta a todos para se prepararem para o tempo que por certo chegará.
Novamente, na parábola sobre as bodas do rei, as quais o Senhor assemelha ao reino do céu, Ele diz: “E o rei, entrando para ver os convidados, viu ali um homem que não estava trajado com veste de núpcias. E disse-lhe: Amigo, como entraste aqui, não tendo veste nupcial? E ele emudeceu”. (Mateus 22,11-12). Então o rei ordenou que ele fosse lançado fora, nas trevas exteriores.
Devemos estar preparados para podermos permanecer no reino de céu. Podemos até ser admitidos lá temporariamente, mas nós não poderemos permanecer lá se não tivermos recebido o céu dentro de nós. Nós temos o céu dentro de nós à medida que fizermos a vontade do Senhor; à medida que vivermos pelo que tivermos aprendido da Palavra de Deus, à medida que tivermos nascido de novo. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
Até a próxima!

Nenhum comentário:
Postar um comentário