Nas antigas religiões e entre os povos vizinhos a Israel, a palavra não é algo como a manifestação ou da vontade, mas algo concreto e cheio da força da pessoa que a pronunciou. Falar é externar o que a pessoa tem no seu íntimo (“A boca fala do que o coração está cheio”). Para os povos antigos o coração é o lugar da decisão. Nos povos não bíblicos, há uma ligação entre palavra e magia. As religiões antigas precisavam dos mitos para justificar suas crenças. E o que segura o mito são a magia e o politeísmo. Como a religião de Israel não é mágica e nem politeísta, mas profundamente ética, não teve mitos embora tenha entrado em contato com as religiões mágicas e politeístas dos povos ao seu redor e bebido dos seus pressupostos, pois o monoteísmo em Israel só é conhecido no pós-exílio.
Para os autores da Bíblia, o mundo foi criado pela Palavra de Deus de Israel. E é esta Palavra de Deus que anima os profetas israelitas (a palavra profeta em português, é uma tradução da palavra grega = a favor de/falar. Então para a Bíblia o Profeta é aquele que fala em nome de Deus. Os profetas não bíblicos falavam em nome dos reis) , pois o que caracteriza o profeta não é tanto a ação , mas a palavra. Os profetas bíblicos só passaram a existir quando surgiu a monarquia em Israel. Paulatinamente a sociedade tribal deixa de existir e o templo concentra os poderes militar, econômico e religioso, o povo passa a ser explorado e oprimido. Como em toda sociedade as religiões celebram cultos pomposos e não questionam as injustiças. Quando isso acontece em Israel, surge então o profeta, que tem sua vocação despertada por Deus. O profeta deixa de existir no pós-exílio, pois não houve mais monarquia. A profecia continuou e continua hoje em todo batizado, que deverá ser um profeta.
Portanto, antes mesmo que a Bíblia começasse a ser escrita, ela já era anunciada pelos profetas através da palavra. São Paulo em sua carta aos Romanos diz que: “A Fé vem pelo anuncio da palavra de Cristo” (Rm 10,17). Após o término da monarquia, com o desaparecimento também dos profetas, surgiu então a preocupação. Ora, se Deus falava ao povo pelos profetas, e se não existiam mais profetas no meio do povo, isto significava que a Palavra de Deus pelo menos nos moldes proféticos, não era mais dita ao povo. Deus não falava mais à sociedade. É nesta época que os livros proféticos são escritos, para manter viva a chamada da Palavra de Deus dita pelos profetas passados, para que a geração seguinte pudesse conhecer a mensagem de Deus anunciada no passado. Mas a profecia não acabou. Ela passa a ser escondida no íntimo dos mais pobres, "O resto, os pobres de Israel". Estes têm a esperança de que a Palavra de Deus não morrera e estava viva na mente e no coração daqueles que esperavam o Messias prometido para libertar Israel (Is, 14 - 17; Lc 24,21).

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